A declaração do presidente vai de encontro à recomendação da Organização Mundial de Saúde, que defende que o isolamento social tem sido a ação mais eficaz até o momento para diminuir a transmissão do novo coronavírus.

Medidas como o fechamento de comércio e escolas têm sido utilizadas em todo o mundo. No Brasil, as iniciativas são adotadas por determinação dos governos estaduais e municipais. A Covid-19 já deixou 46 mortos no país e 16.231 no mundo.

Durante o pronunciamento de Bolsonaro, houve panelaço em todas as regiões do país, inclusive em Salvador.

“Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, declarou Bolsonaro.

A medida de fechamento de escolas tem sido adotada como um dos medida de prevenção, a fim de promover isolamento social, já que crianças e jovens são consideradas “vetores” de propagação do vírus aos mais velhos. A OMS também já registrou mortes de crianças no mundo.

O presidente também afirmou que o coronavírus “brevemente passará” e afirmou que a vida “tem que continuar”:

“O vírus chegou. Está sendo enfrentado por nós e brevemente passará. Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade”, declarou o presidente.

Sem citar nenhum dado que comprove sua declaração, Bolsonaro são disse que seriam “raros” os casos de vítimas fatais entre pessoas com menos de 40 anos “sãs”:

“Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. Noventa por cento de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. Devemos sim é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós”, disse o mandatário.

Diferentemente da fala do presidente, estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia, de Nova York, aponta que os portadores sem sintomas são responsáveis por dois terços das infecções. Conforme publicação dos pesquisadores, os assintomáticos são seis vezes mais numerosos e, mesmo com propensão menor a infectar outros, se tornam o “motor” que move a epidemia.

No pronunciamento, Bolsonaro ainda elogiou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, dizendo que ele está fazendo um “excelente trabalho de esclarecimento e preparação do SUS”.

Imprensa

O presidente também criticou a cobertura da imprensa sobre a crise. Segundo ele, veículos de comunicação teriam espalhado “a sensação de pavor” e potencializaram um cenário de “histeria”, expressão que ele já vinha usando para se referir aos efeitos do vírus.

Bolsonaro disse que a imprensa teria usado o alto número de mortos na Itália para projetar uma situação semelhante no Brasil. No entanto, ele alegou que a comparação não faria sentido, porque o país tem mais idosos e um clima diferente do país.

“Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro chefe o anúncio de um grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso. Um cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalhe-se pelo nosso país.

Apesar da declaração do presidente, não há evidências de que um clima mais quente possa impedir a propagação do novo coronavírus. Análise inicial de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, aponta que temperaturas mais altas podem tornar esse vírus menos eficaz, mas isso não significa que não há transmissão

Bolsonaro ainda ironizou, indiretamente, o médico Drauzio Varella e a TV Globo, ao se referir ao coronavírus de “gripezinha” ou “resfriadinho”, ao mencionar a um termo utilizado em um vídeo gravado em janeiro de 2020 pelo médico.

No domingo, o Portal Drauzio Varella alertou que o vídeo, que foi gravado quando o coronavírus ainda não havia chegado ao Brasil, foi compartilhado pelo ministro do Meio ambiente, Ricardo Salles, como se fosse atual.

“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão”, disse o presidente.

Depois de o Twitter retirar do ar o post do ministro por “violar as políticas da empresa, além de uma alta repercussão negativa”, Salles fez um pedido de desculpas.

Este foi o terceiro pronunciamento sobre o tema realizado pelo presidente em um intervalo de menos de 20 dias. No primeiro pronunciamento sobre o tema, do dia 6 de março, Bolsonaro afirmou que não havia motivo para “pânico” e que o momento era de união.

Depois disso, a segunda fala sobre o tema foi realizada no dia 12 de março. O presidente recomendou o adiamento de manifestações que estavam marcadas para o domingo seguinte, por conta da recomendação para evitar aglomerações. No entanto, o próprio Bolsonaro descumpriu recomendação médica para ficar em isolamento,já que tinha chegado de viagem aos EUA, e acabou participando dos protestos.