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Educação Seduc

Cadernos de Aprendizagem da Seduc fortalecem comunidades tradicionais

Um material rico de saberes, vivências e histórias das comunidades tradicionais

26/11/2021 16h30
Por: Redação Fonte: Dicom Pmc
Cadernos de Aprendizagem da Seduc fortalecem comunidades tradicionais

Um material rico de saberes, vivências e histórias das comunidades tradicionais, contadas por meio de personagens reais, que fazem parte do cotidiano das próprias crianças. Essa é a proposta dos Cadernos de Aprendizagem para Educação Escolar Quilombola e do Campo, realizada pela Rede Pública Municipal de Ensino de Camaçari.

Para a gestora e professora da Escola Municipal Nossa Senhora Santana, Alexandra Portugal, a construção dos cadernos visam, exatamente, salvaguardar a cultura, memórias e tradições do lugar em que habitam. “As crianças terão oportunidade de reconhecer a história da sua comunidade no livro que tem a identidade local. São essas referências que expressam as verdadeiras riquezas do nosso município”, evidenciou a professora, cuja unidade que administra situa-se no quilombo de Cordoaria, em Camaçari.

Quando Thalita Costa, aluna do 3º ano do Ensino Fundamental I na Nossa Senhora Santana, nascida e criada naquela comunidade, ficou sabendo que a história das beijuzeiras seria tema do livro da escola em que estuda, ficou muito feliz. “Minha mãe é beijuzeira”, disse a estudante, logo emendando: “quero ser professora de beijuzeira, pra eu ensinar elas a ter dinheiro, e ajudar aqui pra ser uma cidade melhor e mais reconhecida”, completou.

Mesmo tão jovem, impressiona a clareza de Thalita acerca dos impactos do ofício de sua mãe, Luzinete Costa, principalmente sobre o seu corpo físico. O desejo da menina é que, por meio de sua dedicação aos estudos, venha a aliviar o fardo que atravessa gerações de sua família. “Isso cansa muito, e eu fico triste com a mamãe que fica no calor. A parte boa é que estou na escola e tenho orgulho que sou quilombola e negra. Mamãe diz que não importa se eu sou negra, se eu sou branca, o que importa é que eu estou aqui na Cordoaria; o importante é que eu estou viva”, contou a estudante aspirante a professora de beijuzeira.

Composta por três fascículos, direcionados à Educação Infantil e aos ciclos I e II do Ensino Fundamental, a obra Cadernos de Aprendizagem para Educação Escolar Quilombola e do Campo é fruto de trabalho conjunto entre a comunidade escolar e os habitantes de cada território. Constitui-se em material didático autoral, que reflete histórias, feições e anseios de estudantes e docentes da rede, conjugando saberes de famílias e de personagens que vivem, fazendo viver, o espaço compartilhado.

A iniciativa é realizada pela Coordenadoria de Inclusão Educacional e tem como tema central, as práticas sociais de leitura e escrita, ancoradas em aspectos sobre a territorialidade, ancestralidade, cultura e raça/etnia. O trabalho se deu por meio de escuta às comunidades local e escolar, unindo diferentes registros de moradores e escrita de narrativas docentes, combinadas aos documentos curriculares locais.

A professora Maria Cristina dos Santos é filha e moradora do local. É também gestora da Escola Municipal Terra Maior, em Cordoaria. Para ela, a construção dos cadernos foi de suma importância para a comunidade e redondezas, que congregam quatro unidades municipais de ensino, contando com a Senhora Santana e a Terra Maior. “Era um sonho meu que as escolas trabalhassem com educação quilombola; mas, de forma regularizada, e não aleatória. Que isso não fique só aqui no município de Camaçari, mas que siga à frente, tanto nas escolas quilombolas quanto nas escolas de Fundamental II também, e que assim se dê continuidade a essa educação quilombola”, declarou Maria Cristina, reconhecendo a riqueza das histórias que aquela comunidade tem para contar para a Bahia e o Brasil.

Luzinete Costa, a mãe da estudante Thalita, expressa orgulho de suas raízes e do trabalho que aprendeu a fazer com seus ancestrais. “Hoje é basicamente dessa produção que vivo e sustento minha família. É uma cultura que está sendo perdida aqui na comunidade”, verbalizou. Luzinete já ajudou milhares de outras mulheres da localidade que tiveram que criar seus filhos sozinhas, como ela, a encontrar na fabricação e comercialização de beijus, o caminho de afirmação de dignidade. “Saber que essa cultura vai ser resgatada através dos cadernos da escola, que alguma criança vai aprender, então essa história nunca mais vai morrer. Eu poderia morrer hoje ou amanhã e essa história minha poderia ser apagada, mas ela não vai. Ela vai continuar eternizada. E pra mim é um motivo de muito orgulho”, concluiu.

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